As Escolhas de Sofia

“Mas quem é a Sofia? E porquê é que interessa o que ela escolhe? A Sofia é uma amante da sétima arte, com formação em psicologia, que nos trará semanalmente uma análise idiossincrática de um filme da sua preferência. Opinião sincera e repleta de curiosidades, acerca de filmes, muitas vezes ignorados pelas luzes da ribalta, mas que de alguma forma merecem protagonismo, pelo interesse do ponto de vista psicológico, da análise do comportamento e da personalidade, e dos benefícios de os visionar. Esperamos que não fique indiferente a esta nova rubrica, e que torne as escolhas da Sofia suas escolhas também!”

Prayers for Bobby (2009) – Será possível amar sem aceitar?

A semana que passou foi marcada pelo chumbo do projeto de co adoção por casais do mesmo sexo. Não vou entrar em discussões acerca do tema (para mim nem existe discussão), vou sim recomendar-vos um filme ao qual ninguém consegue ficar indiferente, e que permite questionar uma posição tão comum que costumamos tomar face a vários assuntos, a de acharmos que sabemos tudo e que não precisamos de saber mais. Além disso este filme funciona como um excelente alerta para a necessidade de aceitarmos as pessoas como elas são e as apoiarmos, sem reprimir a sua identidade e impor as nossas opiniões.

“Prayers for Bobby” é um filme produzido por uma estação de televisão americana, baseado nos factos reais expostos no livro homónimo de Leroy F. Aarons. Realizado por Russell Mulcahy, responsável, mais recentemente, pela realização da conhecida série “Teen Woolf”, conta com um elenco de qualidade, de entre os quais se destaca Sigourney Weaver nomeada para um Globo de Ouro e um Emmy pelo seu papel.

Este emocionante filme conta a história de Mary Griffith (Sigourney Weaver), uma devota cristã, mãe de família que educa os seus filhos à luz da doutrina da Igreja Presbiteriana no início dos anos oitenta. Quando o seu filho mais novo Bobby (Ryan Kelley) revela que é homossexual Mary passa a submetê-lo a terapias e rituais com o intuito de o “curar” e prevenir que o pecado da homossexualidade assombre o seu filho, outrora perfeito. Apesar da tentativa de normalização e apoio do seu pai (Henry Czerny), do irmão (Austin Nichols), das suas irmãs (Carly Schroeder e Shannon Eagen) e da prima (Rebecca Louise Miller), para o jovem que tenta compreender e aceitar a sua sexualidade, a rejeição por parte da mãe tem uma forte influência na sua vida.

Esforçando-se por reprimir os seus sentimentos, Bobby acaba por se distanciar da sua família, refugiando-se nos seus diários e pensamentos. Este torna-se assim uma personagem capaz de retratar a angústia que muitos jovens LGBT sofrem, sobretudo por não se sentirem integrados na sociedade e ao mesmo tempo desamparados pelas próprias famílias, tornando-os um grupo vulnerável ao suicídio, três vezes mais do que os jovens heterossexuais.

Mary que acredita que o filho escolheu a sua orientação sexual acaba por rejeitá-lo: “Eu não vou ter um filho gay!”, são as últimas palavras que Bobby se recorda pronunciadas pela mãe.

A partir daqui a história desenvolve-se em torno da luta que Mary trava entre a lealdade à sua fé e o sentimento de culpa perante o destino de Bobby. Este é também o ponto em que o filme nos surpreende, dando enfoque à continuidade da história, possibilitando a observação da perspetiva de ambas as personagens sobre o caminho da aceitação de si próprios e dos que outros. É também explorado o poder da rejeição que tanto tendemos a desvalorizar.

Mary procura então encontrar um equilíbrio possível entre a sua religiosidade e a aceitação pelo filho, quando compreende que impor as suas crenças não surtiu resultados, procura instruir-se, abrir os seus horizontes e compreender para além daquilo que lhe é apresentado.

Este é um filme pouco ousado a nível cinematográfico mas que aposta tudo no poder do enredo e nas emoções que provoca, portanto façam como a Mary e procurem saber mais e conhecer melhor ao verem “Prayers for Bobby”, não se vão arrepender.

“Prayers for Bobby” (2009)_1