As Escolhas de Sofia #8 (Bolo de Neve)

As Escolhas de Sofia

“Mas quem é a Sofia? E porquê é que interessa o que ela escolhe? A Sofia é uma amante da sétima arte, com formação em psicologia, que nos trará semanalmente uma análise idiossincrática de um filme da sua preferência. Opinião sincera e repleta de curiosidades, acerca de filmes, muitas vezes ignorados pelas luzes da ribalta, mas que de alguma forma merecem protagonismo, pelo interesse do ponto de vista psicológico, da análise do comportamento e da personalidade, e dos benefícios de os visionar. Esperamos que não fique indiferente a esta nova rubrica, e que torne as escolhas da Sofia suas escolhas também!”

Bolo de Neve (2006) – Simplesmente Doce

Tendo em conta a descida acentuada da temperatura resolvi esta semana falar-vos de um filme com neve mas “quentinho” no simbolismo.

“Bolo de Neve” é um filme realizado por Marc Evans, com argumento de Angela Pell onde, mais uma vez, Sigourney Weaver desempenha um brilhante papel, desta vez ao lado de Alan Rickman, que tão bem conhecemos da sua famosa personagem Severus Snape nos filmes de “Harry Potter”, e cuja personagem, neste filme, foi escrita propositadamente para sua interpretação.

O filme conta a história de Alex (Alan Rickman) um melancólico turista inglês que viaja para o Canadá para se encontra com a mãe do seu filho. Pelo caminho conhece uma jovem irreverente e excêntrica – Viviane (Emily Hampshire) – a quem, relutantemente, oferece boleia para casa. Durante a viagem o carro é atingido por um camião e Viviane morre instantaneamente, enquanto Alex sofre apenas algumas escoriações. Extremamente perturbado por esta fatalidade resolve visitar Linda (Sigourney Weaver), a mãe de Viviane, que sobre de autismo, e apesar de compreender a situação, lida de uma forma muito própria com a morte da filha. Consumido pelo sentimento de culpa, Alex sente-se na obrigação de ficar com Linda até ao funeral, esforçando-se por perceber a sua visão do mundo. Durante a sua estadia começa a relacionar-se com Maggie (Carrie-Anne Moss), uma vizinha de Linda, que o ajuda a compreendê-la melhor, mas também a enfrentar os fantasmas do seu passado.

Pelo facto de Linda ser altamente funcional apesar da sua perturbação, este é um filme que aborda a temática do autismo por uma perspetiva mais otimista, tornando-a apenas uma característica da personagem e não o foco de atenção da história, sendo este conduzindo para a forma como pessoas tão diferentes lidam com a perda, e o poder da amizade e da socialização ao lidarmos com os problemas.

“Bolo de Neve” fala-nos das tragédias que assombram as nossas vidas e com as quais devemos aprender a lidar para seguir em frente, perdoando os outros e, muitas vezes, perdoando-nos a nós próprios, derretendo o bloco de gelo que se forma dentro de nós e nos impede de sentir o mundo.

Este é um filme repleto de simbolismos. O pano de fundo da narrativa, gélido e branco transporta-nos para a necessidade que cada personagem tem em adquirir cor (alegria), encontrando-se “gelados” pelo sofrimento. Por sua vez, a banda sonora, que é extremamente rica, concede-lhe um toque algo sombrio. Além disso também as palavras e atitudes espontâneas de Linda são, habitualmente, o reflexo dos sentimentos sem o filtro das normas, e portanto genuínas e claras.

É um filme simples mas com profundidade, principalmente no que diz respeito à forma como os sentimentos podem ser expressos em múltiplas dimensões e mesmo assim serem partilhadas e entendidos muito além das nossas diferenças.

"Bolo de Neve" (2006)_1