Time waits for no one: #6 (Cannibal Girls)

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«Time can tear down a building or destroy a woman’s face Hours are like diamonds, don’t let them waste.»

«Cannibal Girls» (1973), de Ivan Reitman

«Cannibal Girls» é a segunda longa-metragem de Ivan Reitman, realizador reconhecido por comédias como «Os Caça-Fantasmas» (1984), «Gémeos» (1988), «Junior» (1994) ou «Um Polícia no Jardim Escola» (1990). Previamente, Reitman dedicara-se ao Cinema de terror tendo produzido até dois filmes de David Cronenberg: «Os Parasitas da Morte» (1975) e «Coma Profundo» (1977).

«Cannibal Girls» é uma comédia-gore, protagonizado por Eugene Levy («Clube Paraíso») e Andrea Martin («Manobras na Casa Branca»). Gloria e Clifford são um jovem casal que passa uma noite romântica num pequeno bed-and-breakfast populado por uma data de canibais que olham para os dois como a sua próxima refeição.

O espectador é presenteado com pequenas porções, tanto de humor, como de terror. De notar o alerta inicial, inovador e nunca antes – ou depois – visto, para uma campainha que tocará sempre que a cena que se seguir seja nefasta para os fracos de espírito («during the showing of Cannibal Girls, in consideration for those of you with delicate sensibilities a special warning bell has been installed. It will signal you when to close your eyes to avoid scenes of a shocking nature. A musical chime with indicate when you can safely open them again»).

Se os filmes de Série B se caracterizam pelo amadorismo, pelos efeitos de suspanse de baixo orçamento, pela representação exagerada do elenco, pela fotografia granulosa e fosca, e pela previsibilidade excessiva, sem dúvida que «Cannibal Girls» se insere neste género. No entanto, se este filme possui todas estas características, possui também outras tantas que merecem destaque.

De facto, um filme com cerca de 41 anos deve ser observado desde o ponto de vista da época em que estreou e analisado, hoje, de acordo com a forma como envelheceu ao longo do tempo. Embora claramente datado, o enredo desenvolve-se de forma simples. Chegados a Farnhamville, Gloria e Clifford são alertados através dos mitos locais da existência de mulheres canibais que anseiam por carne humana. Daqui partimos para um trabalho intrincado sobre a narrativa que nos desvia da dupla romântica durante determinados momentos, para que nos foquemos nas diferentes personagens azaradas que caíram nas mãos das belas canibais da guesthouse.

Embora o já referido aviso aquando das sequências mais sensíveis retire de certa forma o efeito surpresa ao longo do filme, verifica-se ainda um determinado guilty pleasure ao assistirmos, como testemunha, às múltiplas e variadas inventivas canibais sobre os hóspedes.

Os relatos da sua estreia relatam um som de alarme um som de alarme tão alto que constituía só por si um motivo de sobressalto, até maior que o das próprias sequências, o que é um dado não só irónico ou hilariante, mas demonstrativo de um vanguardismo inteligente do realizador. Para além do mais «Cannibal Girls» é desde logo um prenúncio do humor inteligente de Ivan Reitman que se assumiria numa fase mais tardia da sua carreira, embalado num registo musical – um piano assustador – e pela localização da acção – um local sinistro, remoto e gelado.

A interpretação dos actores, embora pareça deslocada e menor, penso que ela é propositada e consciente do humor necessário ao filme. Por exemplo, o anfitrião da pousada, que interrompe os hóspedes a meio da noite para lhes avisar para não se incomodarem com os sons estranhos e gritos que possam ouvir. Estes trejeitos muito pouco galantes são, no entanto, muito bem-vindos na estética de um filme excêntrico que não se leva a si próprio muito a sério.

«Cannibal Girls» sofre de problemas claros de cadência – particularmente provocados pelos flashbacks alongados – o que não aparenta problemas de maior, pois quando voltamos à acção do par de protagonistas estamos de volta à narrativa sequencial e reconfortados pelo jogo que esta representa.

Longe de ser uma obra-prima ou um clássico de todos os tempos, «Cannibal Girls» de Ivan Reitman é como um tesouro escondido, já gasto, descontextualizado na nossa actualidade, cansado de ser ignorado, mas que recompensa quem o busca e quem lhe dispensa a atenção que merece, mantidas as devidas distâncias.

01 - Cannibal Girls
01 – Cannibal Girls
02 - Cannibal Girls Poster
02 – Cannibal Girls Poster

Próxima publicação (23 de Abril): «O erotismo em Tinto Brass: “Salon Kitty” e “Transgredire”»