Contrariamente às nossas expectativas, “1917” perdeu ontem o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realização para o filme sul coreano Parasitas”, vencendo, no entanto, as categorias de Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Mistura de Som. A verdade é que, desde que surgiu, “1917” tem dado muito que falar a nível da técnica, mas acreditamos que esconda muitas mais camadas do que aquelas que têm sido aclamadas pela crítica.

O filme, inspirado nas histórias do avô do realizador e co-guionista Sam Mendes, que foi correspondente de guerra, abre numa calmaria aparente: os soldados Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) estão a dormitar tranquilamente sobre um lençol de relva verde, num sono que, no pico da Primeira Guerra Mundial, não dura, no entanto, muito tempo. Os soldados estão prestes a ser chamados à presença do general, que os incube de uma missão quási-suicida: avançar pelas trincheiras inimigas e pela “terra de ninguém”, para entregar uma mensagem ao batalhão da frente e travar um ataque que resultaria na morte de 1600 homens, entre os quais, o irmão de Blake.

A premissa, muito simples, não introduz nada de novo. Trata-se da história mil vezes contada do herói que tem o mundo nas suas mãos e enfrenta vários obstáculos para tentar salvá-lo. A diferença, no entanto, é que Sam Mendes nos traz personagens reais, com as quais o espectador consegue facilmente identificar-se. Não temos à nossa frente as típicas personagens destemidas e sedentas de acção, que parecem saber exactamente o que fazer e para onde ir. Pelo contrário, Schofield e Blake tomam decisões com cautela, divididos entre o medo de avançar e o impulso de fazê-lo, recorrendo muitas vezes à sorte e à ajuda de terceiros para cumprir a missão que lhes foi incumbida.

O medo é, sem dúvida, uma constante ao longo do filme, que avança de forma unilateral, sem cortes para outras cenas ou outros tempos – técnica que, de resto, lhe concede dois Globos de Ouro e sete troféus do BAFTA 2020 que (para além do prémio de Melhor Filme e Melhor Realizador) lhe aclamam a fotografia, os efeitos visuais, o som e o design de produção, e o catapultou para a linha da frente dos Óscares. 

Sem qualquer ideia do que se passa do lado de lá das trincheiras inimigas, o espectador confina-se assim à mesma expectativa agonizante dos dois soldados, retendo a respiração a cada novo perigo a que são submetidos, numa dicotomia constante entre as belíssimas paisagens que  vão sendo apresentadas e a podridão da guerra – a comida que escasseia, as ratazanas que lhes passam por cima dos pés, as armadilhas e os corpos mortos que se multiplicam.

“1917” desmistifica assim não apenas a ilusão do soldado sem-medo, mas a própria glorificação à guerra que muitas vezes se faz neste género de filme. As personagens movem-se não por um qualquer amor à pátria ou um desajustado dever de obediência ao superior hierárquico, mas antes por valores de amizade e um instinto de sobrevivência com que qualquer espectador sentirá empatia, e que torna o filme de Sam Mendes bem mais do que um exercício técnico.

«1917» – A desmistificação da guerra
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