Querido Diário: Edição Cineclubes #1 (Viseu)

Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

Chegamos a Viseu, terra de Viriato, um lutador, e terra das rotundas! Considerada uma das melhores cidades da Europa para se viver, Viseu é hoje uma cidade culturalmente ativa, tendo vindo a crescer no número de artistas, como na pintura, na fotografia, na música e no cinema.

Obrigado por serem os primeiros a receber-nos nesta nossa nova rubrica, dedicada especialmente aos cineclubes de Portugal. Iniciamos esta nossa viagem por Viseu, por ser atualmente um dos cineclubes mais ativos do país, oferecendo sempre uma excelente programação aos viseenses.

Edição Cineclubes #1 (Viseu)

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCV – Cine Clube de Viseu

C7A: Como nasceu o cineclube?

CCV: Fortes convicções pessoais e cívicas, no seio dos fundadores da associação, e algumas influências culturais da época, como a existência de cine clubes noutras cidades. Iniciar uma actividade associativa e cinéfila em 1955, em Viseu, representou um gesto de grande determinação e alcance, que ainda hoje nos motiva.

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCV: A programação procura criar um espaço de divulgação e reflexão à volta do cinema, considerando que se trata, também, de uma forma de arte. As escolhas do Cine Clube de Viseu são feitas segundo critérios artísticos, estéticos, históricos, criando uma reserva de cinema não dependente do retorno comercial, o que proporciona a apresentação de dezenas de filmes ao longo do ano, que no caso de Viseu não chegariam aos espectadores: filmes das mais variadas cinematografias, autores, clássicos e primeiras obras.  

Vamos, por isso, ao encontro dos interesses do público que gosta de um espaço plural e livre de apresentação dos filmes. Um espaço alternativo ao circuito comercial e fundamental para o desenvolvimento cultural do país. Não é um espaço a que o público adira de forma massificada, nem condições existem para tal neste país de atrasos estruturais do seu sistema educativo na sensibilização de públicos para o cinema e audiovisual e onde o espaço mediático se concentra exclusivamente no cinema mainstream. 

C7A: É dificil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCV: As dificuldades surgem das muitas limitações do mercado de distribuição (clássicos para ver em sala, em Portugal, por exemplo, são raríssimos), não por constrangimentos de público.

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCV: Sim, é o primeiro ponto dos estatutos do CCV, “impulsionar e defender o cinema português”, o que tem todo o sentido: o cinema português existe se chegar ao público, e isso faz-se sobretudo nos circuitos não comerciais. Fazemos semanas de cinema português, ciclos, contamos com a presença regular de cineastas portugueses e outros convidados, todos os anos. A nossa cinematografia é admirável, como os cine clubes e os circuitos internacionais de festivais sempre defenderam.

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCV: No aspecto específico das entradas, há muitos anos que os valores se mantêm inalterados. Para os nossos associados, o acesso às sessões faz-se por menos de 2 euros. Tentamos o mais possível manter o acesso universal às nossas sessões, e ainda por cima muitos filmes têm extras como conversas com realizadores. Em 1955 eram os associados que suportavam a actividade, mas o percurso do cine clube de Viseu e a sua intervenção sócio-cultural justificam a existência de financiamento público. O público é fundamental, o reconhecimento do papel dos cine clubes pelo Estado e a capacidade de gerar receitas próprias também.

C7A: Qual a importância deste cineclube para a cidade de Viseu e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCV: Resumir a importância de 57 anos de história do cine clube em viseu é difícil. Talvez se possa destacar um aspecto: a consolidação do papel das organizações associativas e independentes.

Existente desde a segunda metade do séc XX, o cine clube de Viseu cresceu numa época em que as motivações materialistas conquistaram terreno, onde a cultura e arte foram capturadas pela superficialidade e pelo mainstream. A possibilidade de uma organização dedicada ao cinema e sem finalidade lucrativa crescer, mobilizando a comunidade, gerações de dirigentes, vontades, meios em torno do cinema como expressão artística e social, tornando visível o cinema português, europeu, lusófono, asiático, entre outros, poderia ser uma utopia neste contexto. O CCV resulta de um sonho que se impôs à realidade, num tempo em que a realidade se sobrepõe constantemente. Esta capacidade de superação e activismo é um dos contributos com maior significado que a história do Cine Clube de Viseu apresenta.

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCV: Evidentemente, em nenhum sector como no sector do cinema foram feitos cortes de uma dimensão tão drástica nos últimos anos. Nas câmaras, a maioria ignora a importância que representa o espaço de exibição e intervenção dos cine clubes – diversificar e enriquecer a oferta cultural numa região, algo que os pelouros de cultura, à sua maneira, repetem à exaustão, com resultados muitíssimo discutíveis.

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCV: As parcerias entre cine clubes são fundamentais, como comprova a existência de um encontro nacional anual. Temos uma Federação que sente, também, muitas dificuldades e que, com esforço, assegura uma parte desta comunicação regular entre todos. Esta Federação tem assento na Federação Internacional o que é igualmente valioso.

C7A: Sabemos que têm um feito um papel notável na formação de novos públicos na cidade, em particular no público mais novo. Fale-nos um pouco disso.

CCV: Historicamente, as actividades que envolvem a sensibilização de novos públicos surgiram com o nascimento do próprio cine clube. Temos um percurso exemplar neste campo, com várias experiências, e que foi sistematizado em 1999 no projecto Cinema para as Escolas. Os cine clubes portugueses foram pioneiros no estudo do cinema e na sua exploração como dispositivo educativo.

C7A: “Cinema para as Escolas” é um projeto vosso que tem dado bons resultados?

CCV: É um projecto bastante consistente, uma das primeiras intervenções contínuas nesta área da sensibilização de públicos, em todo o país, e que actua nos diversos níveis de escolaridade e diferentes concelhos do distrito e da região. Consegue, desde 1999, uma continuidade que é uma condição fundamental. O projecto é financiado em grande medida pelo programa VER do Instituto do Cinema e Audiovisual, uma linha de apoio que este Instituto criou para levar o cinema e audiovisual junto dos públicos em idade escolar. Temos uma participação média de dois mil alunos por ano, a partir dos três anos de idade, uma grande responsabilidade para o Cine Clube de Viseu.

C7A: “Cinema na Cidade” (no Verão realizam sessões de cinema ao ar livre) é outro dos vossos projetos que tem tido bastante sucesso na cidade.

CCV: É uma das actividades emblemáticas do CCV, que com o passar dos anos se tornou um momento cultural de grande alcance no verão na cidade. E, de novo, o cinema aproximou o público da sua cidade: espaços centrais como o Parque Aquilino Ribeiro, nos anos 1980, ou a Praça D.Duarte, desde 2009, conquistaram novo protagonismo e visibilidade devido à dinamização cultural levada a cabo.

C7A: O cineclube só vive da dedicação e trabalho dos voluntários?

CCV: A parte fundamental é a dedicação voluntária, das colaborações pontuais aos dirigentes da associação. Em finais dos anos 1990, para garantir a continuidade dos vários projectos, passou a existir uma estrutura semi-profissional, que é fundamental para intensificar a actividade e organizar o próprio cine clube.

C7A: Película ou Digital?

CCV: Sala de Cinema.

C7A: Um dos principais objectivos de um cineclube é o de discutir e refletir sobre cinema. Acha que os cineclubes hoje tem cumprido essa missão, para além da simples exibição?

CCV: Claro que sim. Não existem fórmulas certas para discutir e reflectir sobre cinema, há trajectos em contextos muito diferentes pelo país que revestem as mais variadas experiências, desde encontros sobre cinema a festivais, portais online e programas formativos, que espelham uma grande actualidade na missão dos cine clubes.

C7A: O que acha que ajudou a tornar o cineclube de Viseu um dos mais importantes cineclubes de Portugal?

CCV: É um dos cine clubes mais activos, com maior alcance de intervenção e maior longevidade. Mas não há, felizmente, rankings de cine clubes – nem, em rigor, há cine clubes mais importantes

Espaço “Mensagem do Presidente”: (este espaço é oferecido ao presidente do cineclube para deixar uma pequena mensagem aos sócios/voluntários/público em geral. É um espaço livre e da inteira responsabilidade do presidente.)

CCV: Por aqui damos relevo ao grupo da direcção e pouca importância ao “presidente”: por isso a última questão não tem muito sentido para nós. Além disso, já vamos deixando algumas “mensagens” nas respostas precedentes.

Mais uma vez, um muito obrigado ao Cine Clube de Viseu!

Edição Cineclubes #1 (Viseu)_logotipo

Querido Diario - Edição Cineclubes - #1

Próxima paragem: Cineclube de Aveiro

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Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta