Domingo passado foi o Dia da Mãe em Portugal, e no próximo domingo é no Brasil. Com isso, trouxe três filmes que abordam diferentes aspectos da maternidade, desde os medos que regem os primeiros anos de uma mãe, os segredos que uma mãe guarda para proteger a família, e também a impossibilidade que as mulheres têm de terem filhos por causa de medidas de controlo e dominação orquestradas por interesses colonialistas.
Outros filmes que também tratam da maternidade e de que já falamos aqui é “Cabelo Rebelde” (Venezuela), “Quatro Filhas” (Tunísia) e “Caixa de Memórias” (Líbano).
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AUSTRÁLIA
“O Senhor Babadook”
[The Babadook, 2014]
Realização: Jennifer Kent
Disponível na Filmin e na Prime Video

“O Senhor Babadook” tornou-se um clássico do horror psicológico e é aclamado pela crítica e pelo público por tratar de temas como o luto, a maternidade e os distúrbios mentais. O filme conta a história de uma mãe que, além de viver o luto pela morte trágica do marido, precisa lidar com o medo do filho pelo monstro Babadook, personagem de um livro. Logo ela percebe que o monstro está a rondar a sua casa e a atormentar a todos. Apesar de eu não me interessar por filmes desse género, lembro que fiquei impressionada quando o assisti. As atuações, a realização, o roteiro e toda a mise-en-scène estão alinhadas e elevam o filme a uma potência magistral.
Outro filme de Jennifer Kent cuja protagonista também é uma mãe a lidar com o luto é The Nightingale. Nesse filme – que não é de horror – situado no século XIX durante a invasão britânica na Austrália, a personagem principal conta com a ajuda de um nativo aborígene para percorrer a selva da Tanzânia para vingar-se da violência contra ela e a sua família causada por um oficial britânico.
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MARROCOS
“A Mãe de Todas as Mentiras”
[The Mother of All Lies, 2023]
Realização: Asmae El Moudir
Disponível na Filmin

A longa de estreia da realizadora marroquina Asmae El Moudir parte de uma motivação pessoal de entender por que não há fotografias da sua infância. Nesta busca, ela percebe que os segredos da sua família estão ligados aos protestos contra a inflação do pão que ocorreram em Casablanca, em 1981, e tiveram uma resposta violenta do governo, matando centenas de pessoas. Com isso, a realizadora recorre ao trabalho artesanal do seu pai para criar uma maqueta da rua onde moravam e convoca familiares e vizinhos para reencenarem os fatos. A “mentira” do título corresponde àquela que a sua avó contou para sobreviver ao trauma e proteger a sua família, mas também a mentira do Estado que contou uma história que não corresponde ao que aconteceu. A avó de El Moudir é a figura mais intrigante do filme, uma matriarca que não gosta de fotografias, mas não se incomoda em ser filmada pela câmara. A realizadora parte dessas faltas de fotografias da sua família e dos protestos para criar novas imagens e manter viva uma memória que não é apenas individual, mas coletiva, e, portanto, política.
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PORTO RICO
“La Operación”
[1982]
Realização: Ana María García
Disponível no Youtube

Já dizia a Silvia Federici que tão importante quanto garantir as condições para a interrupção voluntária da gravidez para quem não deseja seguir com a maternidade é garantir condições para que aquelas que querem ser mãe não precisem interromper a gravidez por falta de condições de sustentar e criar um filho. No documentário “La Operación”, de Ana María García, ficamos a conhecer a ação de esterilização forçada em massa que aconteceu promovida e financiada pelos Estados Unidos e por Porto Rico às mulheres porto-riquenhas entre as décadas de 1950 e 1960.
Em resposta ao aumento populacional das décadas anteriores, uma das soluções foi instaurar uma política pública de controlo de natalidade de princípios eugenistas que tinha como objetivo principal fazer com que as mulheres pobres não tivessem mais filhos. Na prática, essas mulheres foram cobaias do ensaio clínico da pílula contraceptiva, mas contra a sua vontade e sem saberem o que estava a acontecer. Elas eram coagidas pelas empresas onde trabalhavam e por médicos e assistentes sociais que iam de porta em porta. Além disso, eram submetidas a diversos exames clínicos e sofriam com os efeitos colaterais da pílula, que na altura tinha uma dosagem muito mais alta do que a atual. No documentário, ficam claras as reais intenções por trás dessa política de esterilização em massa que atualizou a relação colonial entre Porto Rico e os Estados Unidos.
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Todas as sextas-feiras, nós, do Elas no Cinema em Lisboa, publicamos aqui no Cinema Sétima Arte recomendações de filmes realizados por mulheres de diferentes partes do mundo. Inspiradas pelo desafio #52FilmsbyWomen, buscaremos priorizar, sempre que possível, obras que estão disponíveis em streamings ou nas salas de cinema de Portugal. Envie-nos também as vossas sugestões!
Acompanhem as nossas recomendações semanais:
Elas no Cinema pelo Mundo #1 – Palestina, Chile, Argentina
Elas no Cinema pelo Mundo #2 – Afeganistão, África do Sul, Albânia
Elas no Cinema pelo Mundo #3 – Canadá, Grécia, Peru
Elas no Cinema pelo Mundo #4 – Alemanha, Angola, Arábia Saudita
Elas no Cinema pelo Mundo #5 – México, Nova Zelândia, Irão
Elas no Cinema pelo Mundo #6 – Áustria, Bangladesh, Bélgica
Elas no Cinema pelo Mundo #7 – Inglaterra, Itália, Estados Unidos
Elas no Cinema pelo Mundo #8 – Brasil, Bulgária, Colômbia
Elas no Cinema pelo Mundo #9 – França, Venezuela, Geórgia
Elas no Cinema pelo Mundo #10 – Arménia, Bósnia e Herzegovina, Costa Rica
Elas no Cinema pelo Mundo #11 – Filipinas, República Dominicana, Tunísia
Elas no Cinema pelo Mundo #12 – Finlândia, Hungria, Índia
Elas no Cinema pelo Mundo #13 – Turquia, Kosovo, Singapura
Elas no Cinema pelo Mundo #14 – Croácia, Dinamarca, Espanha
Elas no Cinema pelo Mundo #15 – Senegal, Vietname, China
Elas no Cinema pelo Mundo #16 – Hong Kong, Japão, Líbano
Elas no Cinema pelo Mundo #17 – Portugal
Elas no Cinema pelo Mundo #18 – Paraguai, Nicarágua, Cuba

