Elas no Cinema pelo Mundo #35 – Suécia, Reino Unido, França

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No “Elas no Cinema pelo Mundo” desta semana, escolhi três filmes com protagonistas femininas intrigantes. As personagens não são desenvolvidas de forma psicologizante, não acessamos o que pensam, as conhecemos por aquilo que fazem, pelo modo que agem, mantendo algum mistério sobre quem realmente são.

A agenda Elas no Cinema em Lisboa publica todas as sextas-feiras no Cinema Sétima Arte sugestões de filmes realizados por mulheres de diferentes partes do mundo. A ideia dessa iniciativa, inspirada pelo desafio #52FilmsbyWomen, é promover o trabalho de realizadoras de vários países ao longo do ano todo. Confira no fim do artigo a lista com as publicações anteriores.

SUÉCIA

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“Holiday”
[2018]
Realização: Isabella Eklöf
Disponível na Filmin

Em “Holiday”, Sacha é a namorada-troféu de um traficante de drogas e fica presa numa teia de luxo e violência durante uma viagem de verão na cidade portuária de Bodrum, na Riviera Turca. Quando assisti ao filme fiquei muito incomodada, e de início as cenas de violência me perturbaram muito, pois pareciam muito explícitas e gratuitas. Mas passados alguns dias, o filme não saia da minha cabeça e eu ficava relembrando várias cenas, especialmente a que Sacha dança diante do espelho na boate – para mim, a cena mais interessante de todas. Aos poucos percebi que o desconforto que sentia era precisamente o que tornava o filme singular. Desconforto por não saber o que movem as personagens, porque agem como agem, porque escolhem um caminho e não outro. A própria personagem parece desconfortável, desajeitada até. Não saber tudo, manter-se distante, querendo se aproximar, fez eu rever a minha relação com esse filme.

O filme é a longa-metragem de estreia de Isabella Eklöf. Em entrevista ao Another Gaze, a cineasta conta que não sabe o que Sacha está pensando, e que, na verdade, não liga a mínima, se importa mesmo é com o que ela faz.

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REINO UNIDO

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“A Viagem de Morvern Callar”
[Morvern Callar, 2002]
Realização: Lynne Ramsay

“A Viagem de Morvern Callar” é uma adaptação da obra literária de Alan Warner, e conta a história da personagem homónima que encontra uma nota de suicídio ao lado do corpo morto do namorado e de um manuscrito inédito escrito por ele. Ela vê a oportunidade de mudar de vida assumindo a autoria do livro e utiliza o pagamento da editora para fazer uma viagem da Escócia para o calor de Ibiza com a sua melhor amiga, numa jornada em busca de liberdade e recomeço.

Gosto muito da forma como a personagem é construída pela maneira sincera com que escapa da verdade. Em muitos dos diálogos, ela responde sobre a ausência repentina do namorado sem de fato dizer que ele morreu e ao mesmo tempo sem mentir sobre o que aconteceu. Protagonizada por Samantha Morton, Morvern Callar é uma personagem engenhosa e por isso mesmo interessante de acompanhar. Lynne Ramsay é uma cineasta que trabalha muito bem a complexidade dos seus personagens sem nos entregar tudo sobre ele, investindo nas sensações do espectador. O seu próximo filme, “Die, My Love”, adaptação do livro da escritora argentina Ariana Harwicz, estreou em Cannes neste ano, mas ainda não tem data de estreia em Portugal. Porém, pelo teaser, e conhecendo o trabalho da realizadora, já ficamos interessadas.

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FRANÇA

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“Para a Minha Irmã”
[À ma soeur!, 2001]
Realização: Catherine Breillat

“Para a Minha Irmã” mostra a rivalidade de duas irmãs adolescentes. Enquanto Elena, a irmã mais velha, tem 15 anos, é bonita e sedutora, Anais é a mais nova, tem 12 anos, e é o oposto. Durante as férias em família, as duas confrontam-se com suas atitudes e experiências sexuais. Elena obriga Anais a assistir em silêncio as suas investidas sexuais a um jovem desconhecido, nutrindo ciúmes e desejos na irmã. A resposta da irmã, no entanto, têm consequências trágicas e imprevistas, atingindo toda a família.

Em entrevista, Catherine Breillat conta que a forma com que banaliza as cenas íntimas e violentas faz com que o público se identifique e ria das próprias tragédias que viveu. O filme é muito provocador e transita num limite moral muito ténue, o que, por si só, desperta curiosidade. Catherine Breillat é uma cineasta que não foge de temas polémicos que envolvem personagens ambivalentes. Recentemente, realizou “No Verão Passado”, adaptação do excelente “Rainha de Copas”, filme dinamarquês realizado por May el-Toukhy, do qual já falamos por aqui.

 

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Confira as nossas recomendações passadas:

#1 – Palestina, Chile, Argentina
#2 – Afeganistão, África do Sul, Albânia
#3 – Canadá, Grécia, Peru
#4 – Alemanha, Angola, Arábia Saudita
#5 – México, Nova Zelândia, Irão
#6 – Áustria, Bangladesh, Bélgica
#7 – Inglaterra, Itália, Estados Unidos
#8 – Brasil, Bulgária, Colômbia
#9 – França, Venezuela, Geórgia
#10 – Arménia, Bósnia e Herzegovina, Costa Rica
#11 – Filipinas, República Dominicana, Tunísia
#12 – Finlândia, Hungria, Índia
#13 – Turquia, Kosovo, Singapura
#14 – Croácia, Dinamarca, Espanha
#15 – Senegal, Vietname, China
#16 – Hong Kong, Japão, Líbano
#17 – Portugal
#18 – Paraguai, Nicarágua, Cuba
#19 – Austrália, Marrocos, Porto Rico
#20 – Estónia, Lituânia, Mongólia
#21 – Líbano, Chile, Argentina
#22 – Brasil, Iémen, Tailândia
#23 – Palestina, França, Japão
#24 – Estados Unidos, Luxemburgo, Noruega
#25 – Guiné-Bissau, México, Paraguai
#26 – Macedónia do Norte, Países Baixos, Polónia
#27 – Roménia, Guatemala, Brasil
#28 – Chéquia, Malásia, São Tomé e Príncipe
#29 – Martinica, Suécia, Coreia do Sul
#30 – Irlanda, Rússia, Síria
#31 – Espanha, Quirguistão, Canadá
#32 – Geórgia, Jordânia, Zâmbia
#33 – Argélia, União Soviética, Arménia
#34 – Itália, Senegal, Suíça