A 98.ª edição dos Óscares revelou, na noite deste domingo (15), os vencedores da principal premiação do cinema mundial. A cerimónia teve lugar no Dolby Theatre, em Los Angeles, reunindo as maiores figuras da indústria cinematográfica.
O grande vencedor da noite foi “Batalha Atrás de Batalha”, que arrecadou seis estatuetas, incluindo o prémio de melhor filme, confirmando o favoritismo que demonstrava ao longo da temporada. Em segundo lugar ficou “Pecadores”, com quatro prémios, seguido de “Frankenstein”, que conquistou três.
A cerimónia foi conduzida pelo humorista Conan O’Brien, que abriu a gala com um monólogo repleto de ironia. Nos primeiros minutos, o apresentador brincou com o actor Timothée Chalamet, após satirizar a personagem tia Gladys do filme “Hora do Desaparecimento” e percorrer cenários inspirados em alguns dos principais nomeados da noite.
O’Brien afirmou, em tom jocoso, ser o “último apresentador humano” da história dos Óscares, numa referência ao debate crescente sobre o uso de inteligência artificial no cinema. Mais tarde, arrancou risos ao dizer que a segurança estava reforçada para proteger “as comunidades do bailado e da ópera”, aludindo à recente polémica gerada por declarações de Chalamet sobre o desinteresse do público por essas artes.
Entre os grandes protagonistas da noite esteve o realizador Paul Thomas Anderson. O cineasta venceu o Óscar de melhor argumento adaptado e, pela primeira vez na carreira, levou também o prémio de melhor realização, além de ver “Batalha Atrás de Batalha” triunfar na categoria de melhor filme. Anderson já havia sido nomeado como realizador por “Haverá Sangue” (2007) e “Linha Fantasma” (2017), e concorria pela segunda vez em argumento adaptado, depois de “Vício Intrínseco” (2014). No total, soma agora duas vitórias após catorze nomeações ao prémio da Academia.
Na representação feminina, Amy Madigan conquistou o primeiro Óscar da carreira ao vencer na categoria de melhor actriz secundária. A vitória chega quarenta anos depois da sua primeira nomeação, também nesta categoria, pelo drama “Duas Vezes numa Vida” (1985), de Bud Yorkin.
Já o prémio de melhor actor secundário ficou com Sean Penn, distinguido pela sua participação em “Batalha Atrás de Batalha”. Trata-se da terceira estatueta do actor, que já havia vencido como melhor actor por “Mystic River” (2003) e “Milk” (2008), sendo esta a sua primeira vitória como secundário.
O realizador Ryan Coogler conquistou o Óscar de melhor argumento original. Com a vitória, tornou-se o segundo realizador negro a vencer nesta categoria, depois de Jordan Peele por “Foge”. O filme escrito por Coogler surpreendeu ao contrariar a tendência de que obras de terror raramente alcançam reconhecimento nas grandes premiações.
Na música, o compositor sueco Ludwig Göransson venceu o prémio de melhor banda sonora original por “Pecadores”, alcançando a terceira estatueta da carreira. As anteriores vieram com “Pantera Negra” (2019) e “Oppenheimer” (2024).
Na categoria de melhor actor, o vencedor foi Michael B. Jordan. A distinção surge após uma disputa prolongada com nomes como Timothée Chalamet e o brasileiro Wagner Moura. Jordan torna-se assim o sexto actor negro a conquistar o Óscar de melhor actor, juntando-se a uma lista que inclui Will Smith, Forest Whitaker, Denzel Washington e Sidney Poitier.
Entre as actrizes, não houve surpresas: Jessie Buckley venceu o Óscar de melhor actriz pela sua interpretação em “Hamnet”. Buckley já havia sido nomeada anteriormente como actriz secundária por “A Filha Perdida”, e confirmou agora o domínio na temporada de prémios, depois de triunfar nos BAFTA, Globos de Ouro, Critics’ Choice e Actors Awards.
Disney volta a sair de mãos vazias
A animação teve também um dos momentos marcantes da noite. Ao apresentar a categoria de melhor longa-metragem de animação, Will Warner sublinhou a importância do género: “A animação é mais do que um prompt; é uma arte que merece protecção”.
Na categoria, a The Walt Disney Company voltou a sair de mãos vazias, apesar de contar com dois títulos entre os nomeados. O prémio acabou por confirmar o favoritismo da temporada e foi entregue a “Guerreiras do K-Pop”, fenómeno global impulsionado pela Netflix.
O filme tornou-se rapidamente um sucesso mundial, liderando os rankings globais da plataforma com mais de 33 milhões de visualizações nas primeiras duas semanas e alcançando o top 10 em 93 países. Desde a estreia, em Junho de 2025, as bandas fictícias que fazem parte da narrativa — Huntr/X e Saja Boys — passaram a dominar as tabelas musicais, superando até gigantes do K-pop como BTS e Blackpink.
O impacto do filme não se ficou pela animação. A canção “Golden”, parte da banda sonora, venceu também melhor canção original. O tema já vinha dominando as tabelas internacionais, tendo alcançado o primeiro lugar na Billboard Global 200 e liderado as paradas em mais de 30 países, incluindo Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos, além de figurar no top 10 de outros 20 territórios.
A estreia da noite
“O Agente Secreto” perdeu a primeira disputa da noite, na categoria estreante de melhor escalação de elenco. Coube ao actor Wagner Moura subir ao palco para apresentar o prémio inédito, acompanhado de Paul Mescal, Chase Infiniti, Delroy Lindo e Gwyneth Paltrow, categoria esta introduzida pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences nesta edição dos Óscares.
Moura representava “O Agente Secreto”, nomeado pelo trabalho do director de elenco Gabriel Domingues. Ao falar do colega, o actor destacou o desafio de encontrar intérpretes com rostos que evocassem a década de 1970. Segundo Moura, Domingues conseguiu encontrar os rostos certos e conduziu o processo com grande cuidado e atenção, tanto nos papéis menores como nos maiores.
O prémio acabou por ser atribuído a Cassandra Kulukundis pelo trabalho em “Batalha Atrás de Batalha”. A directora de elenco mantém uma longa colaboração com o realizador Paul Thomas Anderson, tendo participado em vários dos seus filmes, entre os quais “Magnolia” (1999), “Haverá Sangue” (2007) e “Vício Intrínseco” (2014). Kulukundis foi também responsável pelo elenco de “O Brutalista” (2024), de Brady Corbet, além de ter trabalhado na série televisiva “Gossip Girl”.
Desde a criação dos Óscares, há 98 anos, esta é a primeira vez que a Academy of Motion Picture Arts and Sciences distingue oficialmente a direcção de elenco de um filme, uma área que até agora não era reconhecida entre as categorias premiadas.
Surpresas
A categoria de melhor curta-metragem de ficção proporcionou um dos momentos mais insólitos da noite, ao terminar num raro empate.
Os vencedores foram “The Singers”, obra que acompanha um grupo de intérpretes vocais e as tensões pessoais que emergem enquanto procuram preservar o delicado equilíbrio entre convivência e criação artística, e “Two People Exchanging Saliva”, um curta de tom irónico que examina a intimidade de um relacionamento a partir de um beijo prolongado.
No momento do discurso, a realizadora de “Two People Exchanging Saliva” recordou a raridade de tal desfecho na história dos prémios atribuídos pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Antes desta edição, haviam sido registados apenas seis empates desde a criação dos Óscares. O primeiro ocorreu em 1932, na categoria de melhor actor.
O episódio mais recente de igualdade remontava a 2013, quando dois filmes dividiram o prémio de melhor edição de som, tornando o desfecho desta noite num acontecimento pouco habitual na longa história da distinção.
Pequenas grandes homenagens
Um dos momentos mais emocionantes da cerimónia foi dedicado ao realizador Rob Reiner. No palco, Billy Crystal e Conan O’Brien conduziram uma homenagem marcada por palavras de afecto e recordações da sua carreira. Reiner e a sua esposa, Michele Singer Reiner, morreram em Dezembro de 2025.
Para assinalar a ocasião, vários actores que trabalharam com o realizador reuniram-se pela primeira vez em palco para celebrar o seu legado. Entre eles estavam Michael McKean, Christopher Guest, Jerry O’Connell, Wil Wheaton, Fred Savage, Cary Elwes, Mandy Patinkin, Carol Kane, o próprio Crystal, além de Meg Ryan, Kiefer Sutherland, Demi Moore, Kevin Pollak, Kathy Bates, Annette Bening, John Cusack e Daphne Zuniga.
Houve ainda espaço para outras homenagens ao longo da noite. A actriz Rachel McAdams prestou tributo a Diane Keaton, destacando a influência da intérprete no cinema das últimas décadas.
Já a cantora e actriz Barbra Streisand recordou o amigo e antigo colega de elenco Robert Redford. Após falar do respeito e do carinho que ambos nutriam um pelo outro, Streisand interpretou um trecho de “The Way We Were”, tema do drama romântico de 1973 realizado por Sydney Pollack, num dos momentos mais nostálgicos da cerimónia.
Um retrato incómodo da Rússia de Putin
O documentário “Mr. Nobody Against Putin” venceu o Óscar de melhor documentário, afirmando-se como uma das obras politicamente mais contundentes premiadas nesta edição. O filme centra-se na história de Pavel Talankin, um videomaker que trabalhava numa escola da cidade industrial de Karabash, na Rússia.
Após a Invasão russa da Ucrânia em 2022, Talankin começa a registar o ambiente dentro da instituição onde trabalha, documentando como o sistema educativo passa a ser mobilizado para promover discursos de apoio à guerra e ao governo do presidente Vladimir Putin. As imagens captadas ao longo desse período acabam por constituir um testemunho directo sobre a forma como a narrativa oficial se infiltra no quotidiano escolar.
À medida que o material ganha dimensão política, Talankin decide abandonar a Rússia por motivos de segurança. O documentário acompanha esse percurso, desde o registo inicial das aulas e actividades escolares até à transformação das gravações numa denúncia pública de alcance internacional.
Actualmente a viver no exílio na Europa, Talankin recebeu o prémio ao lado do codiretor norte-americano David Borenstein. O filme acabou por superar o favorito “A Vizinha Perfeita”.
A vitória insere-se numa sequência recente de distinções atribuídas a documentários críticos em relação ao poder russo. Nos últimos anos, a Academy of Motion Picture Arts and Sciences premiou “Navalny” em 2023 e “20 Dias em Mariupol” em 2024. Na edição passada, o galardão foi entregue a “No Other Land”, coprodução israelo-palestiniana que acompanha a destruição de uma comunidade palestiniana na Cisjordânia.
O comboio não chegou
O Brasil esteve perto de uma vitória histórica, mas o prémio de melhor fotografia acabou por escapar a Adolpho Veloso, que concorria com “Sonhos e Comboios”. A estatueta foi atribuída à directora de fotografia Autumn Durald Arkapaw, pelo trabalho em “Pecadores”.
Com a vitória, Arkapaw torna-se a primeira mulher a conquistar o Óscar nesta categoria, além de ser apenas a quarta mulher alguma vez nomeada e a primeira mulher negra a alcançar tal reconhecimento.
Até hoje, a presença feminina nesta área tem sido rara. Entre as poucas indicadas anteriores encontram-se Rachel Morrison, nomeada por “Mudbound”, Ari Wegner por “O Poder do Cão”, e Mandy Walker por “Elvis”.
A vitória de Arkapaw não apenas consagra o trabalho visual de “Pecadores”, como também assinala uma mudança simbólica numa das categorias historicamente mais fechadas da indústria cinematográfica.
Onde está a pirraça?
Depois da vitória histórica de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, na edição passada, o Brasil sonhava repetir o feito com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Desta vez, porém, a estatueta escapou.
O Óscar de melhor filme internacional foi atribuído a “Valor Sentimental”, do realizador norueguês Joachim Trier. Trata-se da primeira vez que um filme da Noruega conquista esta distinção, após sete nomeações ao longo da história da categoria.
Ao receber a estatueta, Trier deixou uma declaração de tom político. “Todos os adultos são responsáveis por todas as crianças. Portanto, não devemos votar em adultos que não tenham isso em consideração”, afirmou o realizador, numa alusão ao caso Jeffrey Epstein e ao silêncio de parte da classe política dos Estados Unidos em torno do escândalo.
O percurso do filme ao longo da temporada de prémios foi particularmente sólido. A obra estreou no Festival de Cannes em Maio de 2025, onde recebeu o Grande Prémio do Júri, equivalente ao segundo lugar da competição. Mais tarde, venceu o prémio de melhor filme em língua não inglesa nos BAFTA e arrecadou seis distinções nos European Film Awards, incluindo o galardão de melhor filme.
Vencedores da 98.ª edição dos Óscares:
Melhor Filme: Adam Somner, Sara Murphy e Paul Thomas Anderson, produtores de Batalha Atrás de Batalha
Melhor Realização: Paul Thomas Anderson, por Batalha Atrás de Batalha
Melhor Actriz: Jessie Buckley, por Hamnet
Melhor Actor: Michael B. Jordan, por Pecadores
Melhor Actor Secundário: Sean Penn, por Batalha Atrás de Batalha
Melhor Actriz Secundária: Amy Madigan, por Hora do Desaparecimento
Melhor Elenco: Cassandra Kulukundis, por Batalha Atrás de Batalha
Melhor Canção Original: Golden, de Do KPop Demon Hunters; música e letra de EJAE, Mark Sonnenblick, Joong Gyu Kwak, Yu Han Lee, Hee Dong Nam, Jeong Hoon Seo e Teddy Park, por Guerreiras do K-Pop
Melhor Filme Internacional: Valor Sentimental
Melhor Fotografia: Autumn Durald Arkapaw, por Pecadores
Melhor Montagem: Andy Jurgensen, por Batalha Atrás de Batalha
Melhor Som: Gareth John, Al Nelson, Gwendolyn Yates Whittle, Gary A. Rizzo e Juan Peralta, por F1: O Filme
Melhor Banda Sonora Original: Ryan Coogler, por Pecadores
Melhor Documentário: David Borenstein, Pavel Talankin, Helle Faber e Alžběta Karásková, por Mr. Nobody Against Putin
Melhor Curta-Metragem Documental: Joshua Seftel e Conall Jones, por Quartos Vazios
Melhores Efeitos Visuais: Joe Letteri, Richard Baneham, Eric Saindon e Daniel Barrett, por Avatar: Fogo e Cinzas
Melhor Direcção de Arte: Tamara Deverell; Decoração de Cenário: Shane Vieau, por Frankenstein
Melhor Argumento Original: Ryan Coogler, por Pecadores
Melhor Argumento Adaptado: Paul Thomas Anderson, por Batalha Atrás de Batalha
Melhor Curta-Metragem de Ficção: Sam A. Davis e Jack Piatt / Alexandre Singh e Natalie Musteata, por The Singers e Two People Exchanging Saliva (empate)
Melhor Maquilhagem e Cabelos: Mike Hill, Jordan Samuel e Cliona Furey, por Frankenstein
Melhor Guarda-Roupa: Kate Hawley, por Frankenstein
Melhor Curta-Metragem de Animação: Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, por The Girl Who Cried Pearls
Melhor Filme de Animação: Maggie Kang, Chris Appelhans e Michelle LM Wong, por Guerreiras do K-Pop

